It is all about girls... or men

31.08.05

"Cansei de ser vegetariana!"

Gisele Ribeiro, às 12h01

Preciso dar um jeito na minha insônia. Além de me deixar péssima no dia seguinte, ela tem dado a sensação de que estou sempre disponível. Nesta terça-feira, o telefone tocou às 4 da manhã. Do outro lado da linha, ouvi: "Gi, você está acordada, né?".

Antes que eu respondesse qualquer coisa, uma voz soluçante emenda: "Cansei de ser vegetariana!". Não entendi direito, já que a amiga em questão nunca colocou na boca uma folha de alface sequer.

"Calma, começa de novo. Eu estava dormindo" [depois de três noites seguidas acordada, eu finalmente conseguira embarcar no sono]. A "Carnívora" diz então que pensa em desistir do namorado por não receber dele a atenção devida. "Mas vocês não são apaixonados um pelo outro?", perguntei.

"Eu sou. Ele, eu já não sei. Sabe planta, Gi? Ele é uma planta, não interage. Quando estamos juntos, é maravilhoso. Ele é carinhoso, diz que me adora e eu fico achando que ele é o homem da minha vida. Mas depois, vira um completo estranho".

Não pude deixar de rir diante da imagem que passou pela minha cabeça: um homem-samambaia prestes a ser trocado por um prato de picanha. Depois de explicar que não estava rindo da situação, disse a ela que àquela hora da madrugada eu não era a pessoa mais adequada para dar conselho, e desliguei. Tentei dormir. Em vão. Morfeu já tinha ido passear em outras camas.

À tarde, uma Carnívora de voz saltitante me liga de novo. "Ai, Gi. Eu cansei de ser vegetariana, mas comer plantinha de vez em quando não faz mal, né?". Respirei fundo e contei até dez. Em certas situações, o silêncio vale mais do que mil palavras.

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29.08.05

Eu me mordo de ciúmes

Gisele Ribeiro, às 14h15

"O ciúme dói nos cotovelos
Na raiz dos cabelos
Gela a sola dos pés
Faz os músculos ficarem moles
E o estômago vão e sem fome"


O verso acima faz parte de um samba gravado por Elza Soares no final de 2001. Com letra e melodia lindíssimas, a música descreve tudo o que o ciúme provoca, mas deixa de fora um dos efeitos mais arrasadores desse sentimento controverso: a perda da racionalidade.

Um amigo me contou que sua namorada recebeu flores do ex. Ela não deu muita bola. Ele ferveu. Pediu o telefone do atrevido para tirar satisfações. Queria aplicar-lhe um corretivo. "É muita cara de pau, Gi. Ou ele pára com isso ou vai levar porrada". Pera lá! Não seria mais fácil a namorada ligar para o ex e dizer, com todas as letras, que não está interessada, em vez de fazê-lo dar sopapos por aí?

Se eu fosse o ex e recebesse um telefonema do namorado atual pedindo satisfações, eu investiria mais ainda na reconquista, porque saberia que estou incomodando, que represento perigo para aquela relação tão frágil, que precisa de demonstrações possessivas para ir adiante.

Na tentativa de explicar essa sensação que, segundo a música, "rói do cóccix até o pescoço", os ciumentos saem-se com desculpas como "É normal sentir ciúme", "Quem ama sente ciúmes", "O ciúme é vital para qualquer casal". Será mesmo?

Para mim, ciúme está associado à insegurança, à posse (olha ela aí de novo). Mas jamais, ao amor. Tenho ciúmes de coisas. Livros e discos, principalmente. Mas não de gente. Como alguém pode sentir ciúmes de algo que não lhe pertence? E é a própria Elza Soares, ciumenta de carteirinha, quem define tudo: "O ciúme é agressivo, uma dose de veneno dentro de um salmão gostoso".

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Paulistanas da gema, falamos português, inglês, espanhol e muita bobagem. Adoramos livros, música e todo tipo de gastrono-
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