Gisele Ribeiro, às 12h01
Preciso dar um jeito na minha insônia. Além de me deixar péssima no dia seguinte, ela tem dado a sensação de que estou sempre disponível. Nesta terça-feira, o telefone tocou às 4 da manhã. Do outro lado da linha, ouvi: "Gi, você está acordada, né?".
Antes que eu respondesse qualquer coisa, uma voz soluçante emenda: "Cansei de ser vegetariana!". Não entendi direito, já que a amiga em questão nunca colocou na boca uma folha de alface sequer.
"Calma, começa de novo. Eu estava dormindo" [depois de três noites seguidas acordada, eu finalmente conseguira embarcar no sono]. A "Carnívora" diz então que pensa em desistir do namorado por não receber dele a atenção devida. "Mas vocês não são apaixonados um pelo outro?", perguntei.
"Eu sou. Ele, eu já não sei. Sabe planta, Gi? Ele é uma planta, não interage. Quando estamos juntos, é maravilhoso. Ele é carinhoso, diz que me adora e eu fico achando que ele é o homem da minha vida. Mas depois, vira um completo estranho".
Não pude deixar de rir diante da imagem que passou pela minha cabeça: um homem-samambaia prestes a ser trocado por um prato de picanha. Depois de explicar que não estava rindo da situação, disse a ela que àquela hora da madrugada eu não era a pessoa mais adequada para dar conselho, e desliguei. Tentei dormir. Em vão. Morfeu já tinha ido passear em outras camas.
À tarde, uma Carnívora de voz saltitante me liga de novo. "Ai, Gi. Eu cansei de ser vegetariana, mas comer plantinha de vez em quando não faz mal, né?". Respirei fundo e contei até dez. Em certas situações, o silêncio vale mais do que mil palavras.
