Gisele Ribeiro, às 19h25
Há tempos, Luiza anda triste. Os olhos fundos, perdidos. A cabeça em outro universo. Não come, não dorme. E como no "Xote das meninas", não quer nada. Passa os dias da cama para a Internet, da Internet para a cama. Esperando Godot.
A mãe desistiu de chamar-lhe a atenção. No fundo até acha bom a súbita falta de apetite ("Ela anda meio pesadinha") e a reclusão voluntária da filha ("Pelo menos posso dormir sem esperá-la toda madrugada").
Os dias passam e Luiza definha. Pouco a pouco. Os olhos tristes. A cabeça em outro planeta. Não come. Não dorme. Só chora. A mãe, preocupada com uma tal de anorexia (passou no Globo Repórter outro dia), a leva ao médico. O doutor pede uma bateria de exames: sangue, urina, fezes, raio-x, tomografia, ultrassom, mais sangue. Luiza, que sempre teve medo de injeção, nem dá bola. Parece não ligar para as picadas que leva e para a mão pesada da enfermeira que lhe deixa hematomas no braço.
Uma semana depois, o telefone de Luiza toca. A mãe atende aos prantos. É o médico com o resultado dos exames: "Sua filha está envenenada, dona Otília...". Atônita, a mãe desliga o telefone sem ouvir o restante do diagnóstico. Busca pela casa venenos para ratos, baratas e aranhas. Nada. Vasculha um baú antigo atrás daquele vidrinho de cicuta que quase usara para matar o marido num momento de raiva. Estava lá, no mesmo cantinho.
Voa para o quarto da filha, sacode-a na tentativa de arrancar-lhe o segredo do envenenamento. A filha não reage. Já não tem forças. Os olhos, sem vida, estão vidrados no computador. Aos prantos, Otília lê a sentença de morte que pisca na tela:
"Jorge, já que você não me quer, eu me vou deste mundo".
Otília olha para aquele fiapo de gente aninhado em seu braço e diz, resignada: "O amor é um veneno que não tem antídoto".
