Gisele Ribeiro, às 23h11
"Você vem sempre aqui?", "Depois que te vi, não vejo mais ninguém. Será que estou ficando cego?", "Pra chegar ao seu coração eu pego a via expressa ou vou por dentro mesmo?". Essas frases estavam na lista das três piores cantadas que eu já tinha ouvido na vida. Até o último sábado.
Durante a festa de aniversário de um amigo, um camarada se aproxima e fica encarando. Não diz nada. Ignoro. Estava apenas afim de me divertir e dançar. Paro para pegar uma água e sento ao lado de um casal de amigos para trocar idéias e dar um tempo para os meus pés, maltratados por oito horas em cima de um salto alto e uma maratona de cinco festas numa única noite.
Quando me dou conta, o camarada está sentado no braço do sofá e pergunta: "Que número você calça? Pelo tamanho, deve ser 35. Nooooossa, seu pé cabe inteirinho na minha boca". Não acreditei no que tinha ouvido. Fiquei muda. O que leva um ser humano a achar que pode conquistar alguém com uma cantada dessas?
Levantei-me e voltei pra pista de dança. Devo ter ficado com cara de idiota, porque quando cheguei na pista meu grupo de amigos foi logo perguntando o que tinha acontecido. Uns caíram na gargalhada. Outros fizeram cara de nojo. Outros, ainda, tiraram um sarro.
Dali em diante foi um festival de citações de péssimas cantadas, mas ninguém discordou que a frase que denunciava o fetiche do podólatra que me paquerava devia receber o prêmio non-sense do ano.
