It is all about girls... or men

18.11.05

A noiva personagem

Renata Rondino, às 15h18

Acho engraçado como as mulheres são, de maneira velada ou escancarada, ensinadas a serem “casáveis”. Minha mãe, por exemplo, poderia escrever um manual de regras que ela tentou me enfiar na cabeça nesses meus 31 anos de existência. Sem sucesso, é claro. Continuo solteira, para desespero dela, que ao menos tem a certeza que fez tudo o que podia.
 
Pra mim, não passam de regras de como ser falsa e enganar o seu futuro companheiro. A idéia é passar para o seu homem a imagem de uma esposinha ideal. É uma extensão daquela frase que a gente ouviu a infância inteira: “É tão feio uma menina fazer (ou falar) isso”. Espere ao menos casar. Aí então você já pode mostrar suas garras, já pode revelar a jararaca que morava em seu interior.
 
Quando eu cresci, a frase “É feio uma menina fazer isso” virou “Agindo assim, você não vai arrumar um namorado!”. Depois, evoluiu para “Você não faz isso na frente do seu namorado, faz?”, para épocas em que eu namorava. Agora ela desistiu de vez.
 
Nada de falar palavrões na frente do moço. Muito menos assistir futebol. Que coisa feia uma moça ficar saindo pra balada o tempo inteiro, vão pensar que você é fácil. Ou seja, não mostre nada do que você realmente é, finja ser uma princesa. Afinal, toda mocinha neste planeta sonha em casar, e este sonho tem que estar acima de tudo, até mesmo de encontrar alguém que goste de você como você é.
 
Outro dia, ao chegar em casa, perguntar por mim e ter como resposta “Foi ver o jogo no Morumbi”, minha mãe comentou: “Por isso ela está encalhada!”
 
A onda agora é não contar pra ninguém que eu não quero ter filhos, e que eu não gosto de crianças. “Que homem vai te querer se você diz isso pra ele?”. Mas o que querem que eu faça? Que eu dê uma de candidato e saia beijando criancinhas, bem fingida? Que eu vá em festas de sobrinhos e engula a vontade de enforcar todos aqueles pestinhas correndo e gritando? Pior, ainda, querem que eu brinque com eles, pra dar mais realismo à encenação!
 
Não quero ter filhos. Não gosto de crianças. E falo palavrão. Foda-se!

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17.11.05

O machismo não existe

Gisele Ribeiro, às 19h43

"Gi, não sei por que vocês falam tanto em machismo. Isso não existe". Ouvi essa teoria do Marcos, um amigo com certa tendência machista (opa! isso não existe!, sorry). Segundo ele, os homens se comportam como sempre se comportaram. Não mudaram. As mulheres, sim. E tiveram de criar um termo sexista para justificar um comportamento anormal.

"O comportamento do dito homem machista é normal. Quem sai da linha é que deve ter um nome específico. No caso, o feminismo, que é muito pouco falado", diz ele.

Escuto incrédula um menino com cara de santo e atitudes contraditórias desfiar sua teoria pouco convencional. "Cinqüenta anos atrás não se ouvia muito falar em machismo. Era comum a mulher não trabalhar, ser dependente, ser só esposa, mãe e dona-de-casa".

Se formos analisar friamente, até que ele tem razão. Só depois da popularização do feminismo é que o machismo passou a ter uma conotação negativa. Até então, o culto à masculinidade e à virilidade era algo totalmente aceito na sociedade.

Por isso, a partir de hoje, eu vou votar pelo fim do feminismo. Quero de volta meu direito de ficar em casa, sem trabalhar. De aceitar as escapadelas extra-conjugais do meu namorado/noivo/marido e manter-me fiel, bem amélia. Quero o direito de não ter direito algum.

Quero de volta também o direito de não dividir as despesas da casa e a conta do restaurante, de não me preocupar com a conta bancária, com a mensalidade da escola dos filhos, com a gasolina do carro (ou mesmo com o carro). Quero de volta meu direito de só me preocupar em manter a casa funcionando, de esperar sempre cheirosa e bem arrumada pela chegada do meu companheiro (opa, companheiro é palavra cunhada do feminismo!).

Quero de volta meu direito de levar uns tapas sempre que olhar para o lado e ver que o grande provedor da família não é o único homem da face da terra. Afinal, eu nem era nascida quando as mulheres saíram queimando sutiãs na praça só para ganhar a liberdade de ter opinião própria.

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16.11.05

Festa estranha com gente esquisita

Renata Rondino, às 07h42

Pra mim, era para ser apenas um singelo aniversário, nada além. Cheguei tarde, pensando em voltar cedo. Ou seja, cumprimentar, fazer meia hora e ir embora.

Das trezentas pessoas no local, eu conhecia quatro. Não poderia estar mais deslocada e com mais vergonha. Diante da minha cara meio aflita, a aniversariante me puxou pela mão e disse que iria me apresentar as amigas dela, que poderiam me animar um pouco. Eis que ela me apresenta para a primeira:

- Essa é a Renata. Renata, essa é a Fulana. Fulana, ela não conhece ninguém aqui, dá uma força pra ela.

- Mas claaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaro! - , disse a Fulana, da qual eu não recordo o nome. - Então, tem um cara que eu estou a fim de ficar, então você poderia beijar o amigo dele, né?

Eu devo ter feito a cara mais nada a ver dos últimos tempos diante de uma proposta de tal magnitude. Estava escrito um "Hein?????????????????" na minha testa bem grande, praticamente um luminoso piscante. Ela percebeu e ainda emendou essa:

- Relaxa, o amigo dele até que é bonitinho!

"Até que é bonitinho" foi simplesmente tosco! Pensei que fosse alguma exceção, que tivesse sido apresentada a uma maluca em particular. Mas não. Quando peguei minha bolsa e estava saindo de fininho, a aniversariante vira pra mim e diz:

- Não, não, fica aí. Meu irmão quer te beijar!

???????????????????????????????????????????????????

Será que virei freira, moralista, passei a ser candidata a fazer parte da Liga das Senhoras Católicas? Como assim as pessoas falam e negociam beijos e ficadas como se fossem balinhas vendidas no farol? A naturalidade como essas pessoas empurraram pra mim alguém pra beijar na boca, sem ao menos me perguntarem se eu estava afim, fez com que eu me sentisse uma personagem carola das novelas do Jorge Amado.

Quando foi que o beijo deixou de ser interessante - uma consequência entre duas pessoas que se sentiram atraídas uma pela outra - e passou a ser algo corriqueiro, praticado por quem sequer está interessado em saber se o outro lhe agrada? Será que eu passei alguns anos em coma, perdi algo e nem fiquei sabendo?

Bem, não preciso dizer que saí correndo da festa. Me sentindo uma tia velha.

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14.11.05

Antes mal acompanhada do que só?

Gisele Ribeiro, às 23h06

O questionamento sobre a data de casamento não é a única pergunta indiscreta pela qual passa a maioria das mulheres. Bete, uma amiga minha, desistiu de ir às reuniões familiares. Aliás, foge delas como o diabo da cruz. Na semana passada, não teve como escapar. Foi madrinha de casamento de uma prima, e teve de enfrentar a curiosidade inquisidora de tias, primas e amigas de infância quanto à sua solteirice.

"'Quando você vai casar' foi a pergunta mais leve, Gi". Uma Bete surpresa me contou que uma tia queria saber quando ela ia ter filhos, porque os filhos são uma companhia durante a velhice. Outra, se ela era lésbica, porque nunca a tinha visto com um namorado. Uma prima, se ela era frígida, porque só as frígidas não arrumam marido.

"Me senti um ET, Gi. E não porque eu era a única avulsa daquela festa bizarra, mas porque, ao olhar para as tias e primas, vi um bando de mulher frustrada, escondendo a infelicidade atrás de um prato cheio de doces e salgadinhos e um casamento de fachada. Posso garantir que a minha vida sexual é muito mais agitada e saudável do que a da maioria daquelas mulheres".

Esse tipo de cobrança absurda nos acompanha desde a infância. Quando crianças, as meninas ouvem a pergunta imbecil: "E aí, já tem namorado?". Depois, adolescentes e com namorado, escutam: "E aí, quando os pombinhos se casam?", Uma vez casadas, ainda na porta da igreja, vem a famigerada intimação: "E os filhos, já sabem quando vêm?".

Por que todo mundo acha que a vida de uma mulher só é completa se ela está casada e com filhos? E se ela não se enquadra no ideal de família é porque tem alguma disfunção sexual ou não gosta de homens?

Quem conhece a Bete, solteira por opção, entende a sua frustração e compartilha dela. Vejam meu caso. Minha mãe, que eu pensei que já tivesse desistido de me ver casada para todo o sempre e se conformado com a idéia d'eu ter ficado pra titia, saiu-se com esta outro dia: "Ôoh, fiiiilha, por que você não investe numa produção independente (prefiro omitir o conceito dela de 'independente')? Eu ajudo a criar. Você pode ir trabalhar e deixar o bebê comigo".

Fiquei com vontade de passar-lhe uma sermão, mas limitei-me a dizer: Pô, até tu, Brutus? Os oito netos que você tem não bastam? Precisa de mais um de contrabando?

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