Gisele Ribeiro, às 13h22
Tenho um amigo que é lindo de doer. Desses pelos quais as mulheres arrastam um bonde. Além de bonito, o cara é inteligente, interessante, culto e alegre. Mas ele tem um problema grave: só consegue manter relacionamentos duradouros com mulheres que fazem dele capacho.
A ex-namorada dele era um anjo. Os amigos, a família, os vizinhos, gatos, cachorros e papagaios a adoravam. Achavam que era a tampa da panela dele. Atenciosa, amantíssima, companheiríssima. Mas isso não era suficiente para ele e, como resultado, era infiel até o último fio de cabelo -embora jurasse que a amava. Foi flagrado numa dessas traições, três meses depois de iniciar o namoro.
A namorada compreensiva não perdoou. Deu-lhe um belo e merecido pé na bunda. O terceiro seguido, nas mesmas condições, mas com protagonistas diferentes. Desde então, ele não se acerta com ninguém. Ou, pelo menos, não se acertava. Há uns oito meses, ele conheceu uma garota. Bonitinha, mas geniosa. A menina o maltrata diante de todos, inclusive da sagrada família. E ele ali, dedicadíssimo, fidelíssimo. E tristíssimo. Nunca o vi tão cabisbaixo. A família nunca o viu tão sem vida. Os amigos nunca o viram tão inseguro e dependente.
"Fulano, vamos mergulhar?".
"Preciso perguntar para a Cicrana se ela deixa".
"Fulano, vamos velejar?".
"Acho que não vai dar. A Cicrana não gosta de velejar".
"Fulano, vamos participar daquela corrida de aventura que estávamos planejando há tempos?"
"Parei. Se eu for, a Cicrana me mata".
Tento entender o motivo dessa preferência, mas não consigo chegar a uma conclusão. Pedi, então, ajuda aos universitários, colegas que viveram situações semelhantes ou que convivem com homens que estão passando por isso.
Um deles me diz que homem é assim mesmo. Só se liga se vê risco de ser traído. Já o Fábio acha que a insegurança é a culpada. "Enquanto a garota o trata mal, ele se vê obrigado a conquistá-la, por isso continua nessa relação e não vai ter foco para outras coisas". Outro me diz que os homens gostam mesmo de ser desafiados, de ter cabresto.
Escuto as explicações e continuo sem entender. Como alguém pode gostar de ser maltratado? Ou preferir um romance castrador? Será que algumas mulheres erram ao ser boazinhas demais -e por isso são passadas para trás? Ou serão os homens todos uns masoquistas, viciados em maus-tratos?
Se alguém souber a resposta, por favor, me diga. Quem sabe ainda dá tempo de salvar alguma alma do purgatório.
