Gisele Ribeiro, às 11h31
Esta semana descobri que estava completamente enganada quando dizia que "não existe coisa mais chata no mundo do que mulher que adora discutir relação". Existe sim. Homem que adora discutir a relação. Perdem o racionalismo e se transformam nos seres mais malas que existem.
Uma amiga minha arrumou um namorado. Não o conheço bem, e pelo pouco que vi... O cara é um grude, desses que querem participar de todos os passos da amada, questionar o motivo de todas as ações dela, opinar até sobre os modelos das calcinhas que ela veste.
Ela tem que ser toda atenção. Não pode dar um passo sozinha que ele já dispara: "Fulana, o que está acontecendo? Por que você não disse que foi em tal lugar? Há alguma coisa errada? Você está cansada de mim?". E isso assim, na frente de todos, inclusive de estranhos (no caso eu, e no caso do lugar a que ela foi sozinha, o banheiro).
Não acreditei na cena que presenciei. Apenas a primeira da noite. O camarada se incomodou com o fato dela pedir uma caipirinha ao garçom sem consultá-lo. Depois, com a camiseta que ela vestia e que, na cabeça dele, atraía olhares demais. Mais ainda, começou a discutir porque ela estava conversando baixo com as amigas e havia "se esquecido" dele.
A Paciente estava visivelmente constrangida pela demonstração excessiva de cuidados do rapaz. Ela promovera o encontro para apresentá-lo aos amigos e já antevia as críticas mordazes das feministas e dos liberais do grupo.
Tentava contornar a situação, amenizar as queixas do Mala-sem-alça, disfarçar a exigência, deixar a DR para depois. Mas o cara era insistente. "Se a gente deixa pra discutir depois, perde o calor do momento", dizia, para todos ouvirem.
Aos poucos, um a um do grupo foi-se despedindo do casal, cada qual com uma desculpa mais esfarrapada que a outra. Quando chegou a minha vez, O Mala resolveu ir ao banheiro. Não sem antes avisá-la. Só faltou dizer: "Benzinho, vou fazer o número 2".
Resolvi esperar sua volta, para não deixá-la sozinha na mesa e para evitar mais uma DR. Olhei pra ela e vi que, apesar do constrangimento, ela exibia, lá no fundinho, um ar de contentamento. Não foi preciso comentar nada. Ela simplesmente disse:
- Ah, Gi. Sei que ele é meio mala, que não é o que vocês esperavam, mas ele gosta de mim, se importa comigo, me dá atenção. Totalmente diferente daqueles canalhas com quem me envolvia.
Fiquei sem palavras e, pela primeira vez na noite, agradeci o fato de O Mala ter voltado para a mesa rapidinho. Despedi-me de ambos e saí do boteco com um gosto estranho na boca. Provavelmente, provocado por palavras não-ditas, que ficaram entaladas na garganta por uma questão de educação.
