Gisele Ribeiro, às 15h24
Quem disse que assombrações não existem? Pois elas existem, sim, e costumam puxar os pés da gente nos momentos mais improváveis. Esta semana, por exemplo, testemunhei algumas aparições.
Estou eu, tranquila em casa, quando toca o telefone. Não reconheço a voz do outro lado da linha. A pessoa se identifica, e continuo sem saber quem é. Diante do meu silêncio, vem o complemento fatídico: "Namoramos em mil novecentos e bolinha".
Vasculho a memória à procura de algo familiar. Nada. Disfarço, falo um "Aaah, oi, tudo bem, quanto tempo... Como você está?" e me pergunto onde diacho o camarada conseguiu meu número. Ele nem deve ter percebido a minha estranheza, porque começou a falar da sua vida sem qualquer ponto de edição entre uma frase e outra.
A essa altura, eu já tinha uma leve idéia de quem era o fantasma. E se a minha suspeita se confirmasse, algo me dizia que eu ia me arrepender de ter atendido o telefone. Pois não foram necessários nem cinco minutos de conversa pra isso acontecer. O Gasparzinho me conta que há tempos vem tentando me encontrar, porque precisava esclarecer o fim do nosso namoro.
Céus! Eu nem lembro direito do sujeito, que dirá de como acabou o namoro. E aí a surpresa: "Sabe, Gi, fiquei aliviado quando você terminou comigo. Eu ia terminar naquele final de semana".
Ao ouvir as justificativas do moço, tenho a nítida impressão de que ele acabou de fugir do hospício. E como louco a gente não deve contrariar, solto um "Nossa, que bom que eu não te magoei", digo mais alguma coisa para acalmar o ego ferido do rapaz, arrumo uma desculpa e desligo o telefone.
Achando tudo aquilo muito surreal, volto para o livro decidida a me concentrar na história que estava lendo. Mas eis que, nem meia hora depois, outro fantasma decide puxar meu pé pelo telefone. Essa voz eu reconheço de imediato.
Muito a contra-gosto e educadamente, faço os cumprimentos de praxe, escuto os lamentos de praxe e percebo que a assombração não está bem. Quando ouço um "Estou com saudade, podemos nos ver?", lembro-me da frase dita no almoço de domingo: "Terapeuta de pobre é pai de santo".
Digo "dia desses, quem sabe... a agenda anda cheia, o tempo tá curto... te ligo quando puder. Tchau". Coloco o telefone na base pensando "Vai procurar um centro espírita, meu filho, porque eu não estou atendendo hoje".
Antes de voltar para a minha leitura, resolvo acender uma vela pro anjo da guarda. Quem sabe ele me perdoa pelo fato de lembrar-me dele apenas nos momentos de aflição e dá um jeitinho de afastar esses seres do além que insistem em assombrar a minha felicidade.
