Gisele Ribeiro, às 23h01
"Você contaria para o seu namorado que beijou outro cara?". Vinda de quem veio, a pergunta me pegou de surpresa. Nina, com quem passei parte da minha adolescência, é uma das minhas amigas mais puritanas. Planeja casamento tradicional, namora o mesmo cara há séculos e sempre defendeu a fidelidade como a maior virtude de um relacionamento.
Se alguém disser que a flagrou com outro, ninguém vai acreditar. Se mostrarem a prova do crime, ainda assim quem a conhece vai duvidar e dizer que é montagem, armação ou coisa parecida. Nina é dessas mulheres de comportamento irrepreensível.
Ela bateu à minha porta na tarde deste domingo, em plena transmissão de Santos x Corinthians (sim, pessoal, eu assisto a jogos de futebol - e gosto). Estava visivelmente nervosa quando fez a pergunta e depois sentenciou: "Gi, eu vou para o inferno".
Difícil imaginar a alma de Nina queimando ao lado do diabo. Poucos sabem, mas Nina é beatíssima. Vai à missa toda semana. Confessa-se com uma freqüência assustadora. Sempre reza ave-marias e pais-nossos para expiar os pecados que julga ter. É praticamente uma santa.
Com o namorado fora da cidade, Nina saiu com colegas de trabalho. Já não se lembrava mais de como era fazer um programa de meninas. Lá pelas tantas, acabou se deixando beijar por um cara que havia se engraçado com ela. Um beijo apenas ("nem foi tão bom assim"), e Nina voltou para casa carregando a culpa do mundo nos ombros e achando que tinha perdido seu lugar no céu.
"Você contaria, Gi?". Difícil responder a uma pergunta dessas. Quando estamos desesperados ou cheios de dúvidas, tendemos a ouvir demais a opinião de outras pessoas. E esquecemos que nem sempre o que os outros pensam é o correto ou reflete aquilo que realmente acreditamos.
O beijo não mudou o que ela sente pelo namorado. Nem a fez repensar o casamento. Foi uma dessas casualidades que podem atingir qualquer pessoa, por mais santa que seja. Nem por um segundo, ela imaginou ir para a cama com o cara, ou manter qualquer tipo de relacionamento com ele. Nina apenas se deixou levar. E já está se punindo por isso.
Talvez, quando souber (sim, ela decidiu contar), seu namorado concorde comigo. Talvez não. Particularmente, não acredito que um beijo inconseqüente possa ser considerado uma traição. Nina pode ter sido infiel por 15 segundos, mas jamais foi desleal. E entre infidelidade e deslealdade, eu relevo sempre o primeiro.
Infidelidade é um deslize a que todos estamos sujeitos. Mostra que somos humanos, que erramos -e erros têm conserto. Já a deslealdade demonstra falta de caráter, e para isso nem muita reza braba dá jeito.
