Gisele, às 15h16
"Sabe que você está muito gostosa hoje?"
A frase, dita durante a cerimônia de um casamento, poderia ser tomada como um tremendo elogio. Desses de levantar a auto-estima de qualquer mulher. Mas, ao contrário, me fez desejar saber um golpe rápido e eficiente que acabasse com a vida do galanteador.
Não, não estou louca de me ofender com um elogio. O problema é que, enquanto o moço me dizia isso, sua namorada, que por acaso é uma das minhas melhores amigas, estava no altar, entre um emocionado grupo de padrinhos.
Confesso que a princípio achei que o camarada estivesse brincando, mas vi que a coisa era séria ao ouvir, em seguida, "Depois da festa, eu deixo a Joana (nome fictício) em casa e a gente dá uma esticada. O que você me diz?". Coincidência ou não, naquele exato momento a noiva dizia o seu sim e minha amiga acenava para nós discretamente. Tinha me encarregado de fazer companhia ao novo namorado durante a cerimônia, para que ele não ficasse deslocado.
Ele deve ter entendido a minha resposta pelo olhar de ódio que lancei, porque passou o resto da noite sem-graça e tenso. Principalmente quando eu parava para conversar com a minha amiga. Eu nunca tinha me visto numa situação como aquela. Não sabia se contava que o cara por quem ela se apaixonara tinha me cantado, se fingia que nada tinha acontecido ou se contratava uns "mano" para dar uma coça no infeliz, ameaçando terminar o serviço se ele não sumisse do mapa.
Como meus ímpetos assassinos habitam apenas no campo da imaginação, procurei ficar longe do casal o máximo possível. Várias vezes Joana me perguntou o que eu tinha, e eu dizia "nada". A uma certa altura, inventei uma dor de cabeça repentina, deixei a festa e fui pra casa tentar achar uma saída para aquela imensa saia justa.
Joana passou anos sozinha até encontrar o camarada. Fui a primeira da turma a quem ele foi apresentado, e embora algo me dissesse que ele era um safado, eu o tratava muito bem. Afinal, ele fazia minha amiga feliz. Na véspera do casamento, Joana me disse que achava que ele era o homem da vida dela, e imaginei o que ela faria se soubesse que o tal cara não passava de um grandessíssimo filho da puta.
Decidi não falar nada enquanto o namoro durasse. Seria a minha palavra contra a dele, e a tendência é a mulher apaixonada sempre acreditar no amado, não importando os laços de amizade. Durante os 13 meses seguintes, arrumei todas as desculpas possíveis e imagináveis para evitar sair com eles. O namoro terminou e deixou uma Joana arrasada. Resolvi, então, deixar o assunto pra lá. Ela não precisava de mais esse dissabor.
Passados quase cinco anos, ontem Joana voltou a me perguntar o motivo do meu afastamento durante o seu namoro com o Safado. Estávamos conversando sobre lealdade e fidelidade, e acabei contando tudo, até mesmo sobre as rosas que o infeliz me mandou diariamente nos dois meses seguintes àquele casamento. A agora casada e feliz Joana ouviu a história e apenas disse. "Pô, Gi, se você tivesse me contado logo, talvez eu não tivesse sofrido tanto". Será mesmo?
