Gisele, às 02h09
Todo mundo, quando se apaixona, quer perpetuar o sentimento de algum modo, certo? Seja em declarações públicas de amor, seja em fotografias de momentos felizes, seja escrevendo. Grandes compositores fizeram e fazem isso muito bem. Eternizaram Luizas, Lígias, Anas, Rosas e Ritas em músicas e poemas belíssimos. Quando a página virou, as musas passaram a inspirar o sonho de outros apaixonados e transformaram-se apenas em lembranças para os Chicos, Toms, Vinícius e Edus.
Só que tem gente que adora achar que amores de momento são pra sempre. E fazem questão de demonstrar isso de maneira não muito inteligente. Tenho um amigo que chegou em casa outro dia exibindo, orgulhoso, sua nova tatuagem. Um dragão enorme. O rabo começando na base da coluna e a cabeça terminando um pouco abaixo da nuca. Lindo. Colorido. Gigante. Acompanhei a obra. Os traços finos. Os detalhes das escamas. Coisa de artista cuidadoso. E enquanto eu admirava a pintura, ele me contava das muitas sessões necessárias para finalizar o desenho. "Deve ter doído muito, Mau".
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O Maurício é um dos caras mais galinhas que eu conheço. Desses que juram fidelidade eterna no começo da noite para uma e terminam com um pedido de casamento a outra. Seu relacionamento mais longo deve ter durado uns dez dias, se não me engano. E em todos eles Mau se dizia apaixonadíssimo. Todas elas eram "A" mulher da vida dele. Mimava-as, exibia seu lado romântico com flores, bilhetinhos calientes e jantares especiais. Até aparecer outro rabo de saia e ele mudar o foco de suas atenções.
Ao ver o nome da mais nova namoradinha do Mau gravado eternamente em sua pele, perguntei o motivo da façanha e, pela enésima vez desde que o conheço, ouvi dele: "Essa é a mulher da minha vida". Até quando, Mau? Rindo, ele me respondeu citando o poetinha: "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure".
Engraçado Mauricio ter citado justamente o Soneto da Fidelidade, uma ode aos amores arrebatadores, mas que, como qualquer romance, pode chegar ao fim. Estou curiosíssima para saber como ele vai se livrar daquele nome enorme gravado nas costas quando, na semana que vem, diante de um encanto maior, seu pensamento se desencantar da atual mulher da sua vida.
Talvez Maurício faça como Ronaldos, Angelinas Jolie e Kelly Keys da vida e recorra a um cirugião plástico ou a outro tatuador para remover ou disfarçar as marcas de um amor esquecido. Se ele tive comentado sua intenção de marcar-se à agulha, teria pedido a ele para esperar pelo menos até o ano que vem, quando tatuagens devem passar a ser feitas com uma tinta especial, que desaparece facilmente e sem deixar vestígios quando submetida a um tipo de laser. Aí sim, essas declarações de amor feitas a sangue e corante poderão ser comparadas não a um poema inesquecível de Vinícius, mas a uma canção efêmera da Cassia Eller, em que o para sempre sempre acaba.

