Red's, às 17h08
Uma das coisas mais difíceis de engolir, pra mim, são pessoas sem personalidade. Talvez, antes de chacoalhá-las e obrigá-las a serem alguém, primeiro eu preciso respirar fundo e aprender a ser mais tolerante e aceitar as pessoas como elas são. Embora elas não sejam como elas são, elas sejam como os outros mandem que elas sejam.
A coisa mais comum entre pessoas sem personalidade é ficarem completamente zumbis quando arrumam um parceiro(a). É sempre a mesma história: desaparece, não dá mais sinal de vida para os amigos, e fica grudado o tempo todo atrás do outro, como se tivesse se transformado num rabo, em um prolongamento do parceiro. Onde um vai, o outro vai atrás.
E, mais do que isso, começa a fazer só o que o outro quer, ou seja, só vai ver a família do outro, só sai com amigos do outro, só faz os programas que o outro estabelece. Porque o outro o convence que os amigos do zumbi são todos uns #$#$%#$%¨&%&¨%#, que as amigas são todas umas galinhas, e que a felicidade só pode ser encontrada ao lado dele, o cônjuge, o parceiro, o eterno amor, a única fonte de alegria e crescimento. Ou seja, fica uma relação entre mestre x zumbi. O mestre determina, o zumbi obedece.
Não há vilões aqui. O mestre é mau, e o zumbi é um babaca. Não adianta ficarmos apenas dizendo: "A Fulana acabou com a vida dele. Ele era um menino tão alegre, e agora virou isso...". Bem, ele virou porque quis, a Fulana só deu um empurrãozinho para que ele aflorasse algo que há muito estava guardado lá dentro.
Quem não se lembra de Ronaldo e Cicarelli? A modelo queria o monopólio dos pensamentos do jogador e, por isso, limou todas as pessoas próximas a ele, incluindo a família. E bastava ver que Ronaldo perguntasse as horas para qualquer pessoa na rua, para que as brigas começassem. Quem ele pensa que é para dirigir a palavra a pessoas não autorizadas por ela?
Já presenciei um casamento na linha Ronaldo e Cicarelli. Há uns anos resolvi ir a uma festa do filho de um casal de amigos da família, só porque eu estava a fim de comer e beber de graça. Coisas de universitário pobre, que passam após os trinta anos. O noivo era um rapaz que, durante a adolescência, foi uma das pessoas mais engraçadas e divertidas que já conheci. Era uma pessoa ótima até conhecer aquela que estava de vestido de noiva. Aí ele migrou para o lado negro da Força.
A sua fifucha era um poço de frescura, daquelas que ficam chocadas quando alguém fala "cocô" ou "xixi", a ponto de colocar a mão no peito e fazer aquelas caras de bocas de "Oh, God!". E ele, que era a figura divertida e falante das festas, churrascos e reuniões sociais, foi se transformando em uma pessoa sisuda, e passou a ficar inconformado com as piadas que antes ajudava a contar, só porque continham palavrões ou alguma nojeira. Ele foi ficando igualzinho a ela.
Antes, falava um monte de bobagens. Depois, foi ficando quieto. Por último, só falava coisas sérias e sempre olhava para os outros com aquele olhar de reprovação. Eu imaginava o momento em que ele viraria para mim e diria: "Por obséquio, você poderia fazer-me a gentileza de passar-me as folhas de guardanapo, ó nobre amiga?"
Claro que começaram os apelidinhos e as piadas pelas costas. Todo mundo começou a perder a paciência, claro. Não dava para imaginar a menina fazendo sexo com ele, porque ela deveria ter nojo, onde já se viu uma mocinha fazer coisas tão feias assim? Os mais grosseiros já diziam que ela só faria sexo oral se fosse presente de aniversário para ele, e ainda assim se ela passasse um lencinho perfumado e anti-bacteriano, com aroma de maçã verde. E depois sairia correndo para lavar a boca, sentindo-se uma prostituta suja.
Mas uma coisa era claro: ela era exatamente o tipo de mulher que ele sempre quis. Ninguém falava com o dedinho na boca como ela. Ninguém era tão princesa, delicada, meiga, boneca, como ela. Tão frágil, tão dependente, e tão... mandona.
Ele desapareceu. Nunca mais esteve presente em nenhum evento social. Estava sempre enfiado na casa dela. Só nos reencontramos no dia do casamento, que eu só fui porque estava precisando de uma festa chique para tomar Moet Chandon e Black Label gastando apenas umas horas com salto alto apertando os pés.
A festa, integralmente bancada pelo pai do capacho, foi um sucesso de público. Dela, claro. A parte dele, reservada à família (meia dúzia) e amigos dos pais (outra meia dúzia), desapareceu em meio à multidão de amigos dela, familiares dela, conhecidos dela, etc, etc, etc. Não vi ali nenhum dos nossos velhos amigos de adolescência. Procurei por eles, e nada. Mas como não? Muitos eram amigos de infância do noivo, daqueles que pareciam ser pro resto da vida. Não, ele não os convidou.
Ele não convidou amigos que seguraram as barras dele, que compartilharam alegrias e momentos difíceis. Esqueceu das pessoas com quem fez várias histórias juntos. Mas pra quê, não é mesmo? Agora ele tinha sua fifuquinha, e ela era mais do que suficiente.
O casamento foi um saco, mas eu pelo menos bebi muito e esqueci aquela palhaçada toda. O noivo ali, embasbacado, diante de uma mulher egoísta que só pensa nela. Achando lindo agir da maneira como agiu.
Há uns três ou quatro meses, mais ou menos, alguém comentou numa reunião familiar que o casamento tinha terminado. Motivo? Chifre! Ela o tinha substituído por um cara do trabalho muito mais velho, barrigudo e pobre. E todos na mesa revoltados, com pena do panacão do noivo, que estava deprê. E eu, com a minha tradicional cara blasé, soltei um "Não tenho pena nenhuma", e fui sumariamente recriminada pela minha maldade.
Não tenho pena de gente sem dignidade. Pra mim, ele mereceu! Estou rindo até agora. E não pretendo parar.