Gisele, às 23h09
Dizem que a vingança é um prato que se come frio, mas o ditado vale para términos tumultuados de relacionamentos? No que depender da minha amiga Cris, não mesmo. A calma em pessoa, Cris foi tomada de uma fúria quase incontrolável quando descobriu que o marido a estava traindo.
O flagra foi uma dessas coincidências absurdas da vida. Com o marido preso em mais uma reunião sem hora acabar e o filho na casa da avó, Cris decidiu sair com as colegas de trabalho no final do expediente. Foram a uma cervejaria na zona norte de São Paulo e eis que em determinado momento ela vê o marido chegando abraçado com - clichê dos clichês - a secretária.
"Gi, eu não conseguia raciocinar. Minha vontade era matar os dois, ali mesmo, mas me contive". Ela não falou nada. Não fez cena. Não chorou. Não contou para as colegas. Observou o infiel de longe e foi elaborando a vingança como fazia com tudo: calmamente. Despediu-se das amigas, pegou um táxi e, no caminho, lembrou-se que Artur havia ido trabalhar com o carro dela para fugir do rodízio. Parou numa delegacia, fez um boletim de ocorrência e foi para casa.
Não contente, pegou todas as roupas do marido e picotou. Não sobrou uma peça inteira. Nem meia. Nem cueca. Nem gravata. Nada. Documentos, papéis, fotografias, tudo foi queimado numa fogueira acesa no quintal. Chamou um chaveiro 24 horas, trocou as fechaduras do portão, da garagem e das portas da casa. Travou as janelas e foi dormir, sem remorso algum.
Às 3h da manhã, toca o telefone. Do outro lado da linha um policial avisa que o carro dela havia sido encontrado e, dentro dele o ladrão, que alegava ser seu marido. Cris disse ao policial que era viúva, perguntou se poderia pegar o carro no dia seguinte, agradeceu pelo "trabalho eficiente" e desligou (da tomada, inclusive). Sentiu-se vingada. "Dormi como um anjo, Gi".
A vingança da Cris é dessas que faz muita gente rir. Foi servida quentíssima, e ninguém saiu ferido (ao menos, não fisicamente). Ela e o agora quase ex-marido ainda vão enfrentar uma longa batalha judicial pela partilha de bens e pela guarda do guri. Mas isso não será nem um pouco engraçado.
