Gisele, às 11h48
Eu fico impressionada como algumas pessoas são capazes de fazer qualquer coisa para nao ficarem sozinhas. Tenho uma amiga está sempre apaixonada. Cada dia por um cara diferente. O de hoje é sempre o homem da vida dela. Mas quando a noite chega, o sono vem e ela dorme, sonha com outro príncipe encantado. No dia seguinte ela acorda, conhece outro cara e se apaixona novamente. Ela me conta que sempre se sente culpada, mas que cansou de estar só e quer casar-se. Detalhe: tem só 24 anos e uma vida inteira pela frente.
Já outro amigo meu, que passou anos procurando uma namorada, está às voltas com os preparativos do seu casamento com uma guria que conheceu há apenas três semanas. A moça é uma das coisas mais insossas que eu já vi na vida. Os amigos e a família torcem o nariz para a escolha. E não é para menos. Ela quase não fala com ninguém, faz caras e bocas pra tudo e tem o péssimo hábito de comer de boca aberta. Me chamem de fresca, mas eu não perdôo esse deslize. É muito desagradável olhar para a pessoa e ver a comida dando voltas dentro da boca (argh!!!). Junte-se a isso o fato de que, quando fala alguma coisa, é num miguxês insuportável.
Numa dessas conversas que só amigos de longa data têm liberdade de ter, perguntei a ele, que é uma pessoa culta e inteligente, se se tratava de uma paixão avassaladora ou de um surto de insanidade temporária. "Ah, Gi, você sabe que desde que eu me separei não tive ninguém. Nem gosto tanto dela assim, mas eu quero uma companheira. Cansei de viver sozinho". Pera lá, o cara divorciou-se há dois anos e a primeira garota com quem ele sai é uma minhoca decerebrada que fala um idioma incompreensível de adolescente idiota??? Ok, vai, estou sendo radical. Ela pode ter lá suas qualidades, mas três dias, e não três semanas, já são suficientes para conhecer todas elas e ver que são muito poucas para uma pessoa como ele.
O mais contraditório é que, num mundo onde as comunicações estão cada vez mais fáceis e rápidas, os relacionamentos estão cada vez mais superficiais e as pessoas estão se sentindo cada vez mais solitárias. Mulheres reclamam que os homens não querem nada sério. Homens, que é quase impossível arrumar alguém com quem valha a pena namorar. O fato é que nenhum dos dois sabe o que quer realmente. Ou o que procura. Ou onde procura.
Outro dia eu fui para uma reunião com um cliente e, enquanto esperava por ele, ouvi as duas recepcionistas comentando o desapontamento com a ala masculina na balada do fim-de-semana. Uma delas contava, com um certo orgulho, que tinha ficado com X caras naquela noite, mas nenhum deles havía provocado o arrepio na espinha que ela procurava há tempos. A outra reclamava que tinha passado a noite fugindo de um cara que acabara de conhecer e que dizia estar "apaixonado por ela".
Existe um blog que eu leio sempre e cujos posts parecem suscitar nas leitoras um tesão incontrolável ou as mais loucas fantasias com o autor. Basta ler os comentários para ver que por trás de cada cantada que o autor recebe está uma mulher -e até homens- carente de um amor ideal, de um companheiro real, de alguém que realize seus desejos e preencha todas aquelas lacunas que fazem as pessoas ficarem juntas. "São todos loucos, Gi", diz ele. "São todos mal-amados, solitários", eu respondo.
Eu queria entender qual é o problema das pessoas com a solidão. Está certo que o ser humano não foi feito para viver só, mas nem por isso tem de se juntar a decerebrados, maníacos, neuróticos, aspirantes a OJ Simpsons, como se não fosse aparecer mais nada de interessante em suas vidas. Então, pelo medo de ficarem sós, eles se contentam em fazer parte de uma parceria desconexa em nome de um companheirismo ilusório.
Ainda sou daquelas que apostam no romantismo, no frio na barriga, na insônia voluntária, na sensação do tempo parado que uma pessoa realmente especial consegue provocar na outra. Gosto de me preparar para um encontro, de despedidas calientes no elevador, de conversas intermináveis mesmo quando parece que não há nada mais para falar, dos silêncios necessários que tanta coisa revelam. Gosto da espera pelo próximo beijo, pelo próximo carinho, pela próxima transa, e até de pequenos prazeres, como andar de mãos dadas, acordar tarde, ficar preguiçando na cama e só levantar para preparar uma refeição especial, ainda que seja aquele sanduíche de queijo que eu detesto, mas que é um manjar dos deuses quando a fome bate.
O que eu vejo em alguns amigos e na maioria das pessoas, principalmente nos mais novos, é que na era das relações efêmeras, em que quase nada vale a pena, parece ser mais fácil esquecer o que realmente importa e se contentar com qualquer tranqueira só para resolver carências sexuais e afetivas.