It is all about girls... or men

13.06.07

Solidão não vende celulares

Red's, às 14h56

Texto brilhante de Xico Sá

 

Aproveito o barulho da efeméride, o dia dos pombinhos, para tratar das vantagens da solidão _essa pantera inseparável, como dizia Augusto dos Anjos, nosso primeiro punk metafísico.

Que massacre, celulares, fofurinhas, shopping, saco!   

O massacre é tanto que alguns solitários se trancam dentro de suas casas neste dia bizarro. A vergonha de ser sozinho(a) depois de tanto samba-exaltação e a porra da felicidade publicitária nos nuestros juízos e cabeções.

Imagina sair por ai e almoçar solamente só, melar os beiços com a solidão de um galeto, e voltar para casa chupando o frio chicabon dos desamparo? Muita gente acha um vexame! Não sabe que é, na maioria das vezes, uma puta vatagem, mas não com esse cardápio, claro, galetinho-gloss ninguém merece.

Como cantarolava o Jorge Ben das antigas, “mas que nada, saia da minha frente que eu quero passar...”

Como diz uma amiga: eu chuto pombinhos nessa data fofinha e querida!

Nada mais elegante do que a solidão tranquila, um trago no balcão do bar, ninguém para encher o saco _a não ser os chatos que se multiplicam por ai, onipresentes, malas, malas, malas. Esses, porém, a gente se livra fácil, não voltam para os nossos lares doces lares.

Não que o amor não seja lindo. Nada disso. “Te amo porra”, bem sabes, como diria mi amigo Campos Viejo.

É obvio que vivemos grandes momentos envenenados por Cupido e suas maçãs carameladas.

O que faço em mais este panfleto avulso é uma defesa da decência solitária, o direito até de esnobar com um "I want to be alone" à Greta Garbo, de não cair no conto do amorzinho a qualquer preço.

De não deixar-se adoecer pela data. A solidão não vende celulares, a solidão está à prova dos truques publicitários, a solidão é revolucionária, a solidão é chique no último, classe!

Aquela coisa de chegar em casa, botar um disco novo, tomar um uísque...

De cantar Antonio Maria da forma mais irônica, como ele também hoje cantaria: “Ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém me chama/ de Baudelaire...”

Não se deixe intimidar, amiga, pelos coraçõezinhos de vento que hoje tomarão conta dos tetos das churrascarias, cantinas, bistrozinhos très romantic... Lembre-se das falsas promessas, dos chifres, das decepções, dos amores filhos-da-puta, das falhas de caráter, daquele campeonato atrás do outro, da sogra infernal, das ilusões perdidas...

Solitários e solitárias, cantemos com os jovens e amorosos mancebos do Mombojó, esse é o reino da alegria, tudo pode acontecer, não temam, todos às ruas, livremente!

E se não acontecer nem tão breve, foda-se de qualquer jeito a nobre data, bote Rolling Stones bem alto, peça um uísque duplo e mate com força todas as bolas do pano verde. Viver é sinucar-se, sempre! 

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12.06.07

O grito dos excluídos

Red's, às 20h40

Eu sempre condenei aqui os casaizinhos que, quando se decidem como tal, resolvem se isolar do mundo e viver num universo só deles. Desaparecem, não telefonam, vão grudados até o banheiro, um não espirra se o outro não estiver do lado, com um lencinho na mão.

Agora, pior do que isso são as pessoas que exigem que você faça o mesmo, caso contrário será considerado uma aberração afetivo-emocional. Queria entender porque o mundo em volta estranha atitudes simples. Semana passada mesmo liguei pra uma amiga e convidei-a para um cinema e uma pizza depois, para colocar a fofoca em dia.

- Cinema?

- É, cinema.

- Mas e o seu namorado não vai?

- Não, ele vai fazer um churrasco na casa dele para os primos.

- E por que você não vai?

- Porque eu não quero.

- Mas por que não? (incluindo um tom de indignação)

PQP, qual é o problema em eu não querer ir ao churrasco e preferir o cinema com uma amiga? Estou cometendo alguma imoralidade digna de apedrejamento em praça pública?

- Não quero, ué. Não estou a fim.

- Mas ele deixa?

Como assim "ele deixa"? Eu tenho 33 anos nas costas, pago as minhas contas e preciso pedir permissão?

- Vamos ao cinema ou não?

- Claro que não. Você tem que ficar com o seu namorado, imagina!

Juro que o sangue ferveu.

- Eu não quero. Vamos ao cinema.

- Ah, eu não deixaria namorado meu pra sair com amiga.

Eu estava falando com uma amiga solteira, sem namorado, sem enrosco, sem absolutamente nada. E que iria ficar em casa de pantufas. Portanto, ela não poderia alegar que estava deixando alguém pra ir ao cinema comigo. Que justificativa existe pra isso, Deus meu?

- Tá bom, então eu vou sozinha.

- Mas por que você não fica com o seu namorado?

- Porque eu não queroooooooooooooooooooooooooooooooooooo. Deixa ele no churrasco com os primos dele! Conversa de macho. Cervejas. Baixarias!

- Ai, Red, eu acho que você não gosta dele tanto assim. Sinceramente!

Neste momento, a doçura foi pro limbo.

- Eu adoro. De paixão mesmo. Mas eu não nasci grudada com ele, eu não dependo dele pra respirar, eu não vivo em função dele. Eu sou um ser pensante e independente, posso ter vida própria.

(silêncio ofendido ao fundo)

Outro dia chamei outra amiga pra ir em casa. E a pergunta:

- Cadê o seu namorado?

- Tá aqui.

- Ah, então não vou.

(óóóódio que eu tenho disso!)

- Por que? Ele tem alguma doença transmissível?

- Ah, mas eu não quero atrapalhar.

Por que as pessoas sempre imaginam que casais precisam passar 24h por dia se lambendo, transando, se beijando, o que torna impossível a vida social? E por que eu chamaria alguém em casa se quisesse passar o dia numa Sodoma e Gomorra?

- Se eu estivesse muito ocupada, não te chamaria pra vir aqui.

- Ah, não, fica aí com o seu namorado. É constrangedor.

É constrangedor o quê, meu Deus? Conversar com um casal?

O mais engraçado é que, todas as vezes em que fiz o mesmo convite para os amigos homens visitarem o meu lar, eles apareceram na boa, deram boas risadas, ficaram tempo suficiente e conversaram muito com o meu namorado. Eles que, em tese deveriam ser os primeiros a perguntar ao menos se o namorado estaria lá ou não, não emitiram um mísero pio a respeito. Eu convidei, eles foram. Sem nenhuma formalidade ou frescura. Só as amigas mulheres que ficam com essa viadagem crônica, que eu tenho vontade de bater.

Ah, e tem também as que perguntam se o namorado achou ruim a visita dos amigos homens. Em tom de segredo, como quem diz: "oh, e ele sabe?". E quando eu respondo: "Sabe, estava lá...", ou "Sabe, mas não estava junto...", sinto que a respiração se prende do outro lado. É um "ai, meu Deus, que horror!", mas tentando disfarçar o julgamento.

- Mas ele não fica bravo?

- Claro que não. Eu não estava dando pra ninguém. Não cometi crime algum. Posso ter amigos?

- Ah, pode, mas...

Mas o que? Caspite, será que é proibido ter um relacionamento saudável, onde duas pessoas possam ter vidas distintas, confiar uma na outra e respeitar o espaço alheio? É imoral? Se eu não ficar grudada, cheirando meia o tempo todo, e proibindo o outro de ter contato com qualquer pessoa do sexo feminino, então isso é falta de amor? Quem gosta, tem que viver o outro em tempo integral, sufocá-lo, não deixá-lo fazer nada!

Imagino que muitos leitores, neste momento, devem pensar algo do tipo: "Por que ela se importa com o que pensam os outros?". Na verdade, o problema não é o que as pessoas pensam. O que me chateia é ser excluída de uma maneira tão estúpida de um círculo social, deixar de estar com pessoas que eu gosto, por um motivo que, na verdade, não existe. Não há sentido algum em deixar de se encontrar com alguém porque você acha que a outra pessoa deveria estar com o namorado (a), e não com você. É uma espécie de solidão completamente sem sentido.

O pior, porém, veio hoje, o dia dos namorados. O dia em que ele acordou gripado, febre alta, sem respirar, sem falar, sem se mover, suplicando por um transplante de cabeça. E toda a população do planeta veio me perguntar o que eu iria fazer esta noite, como se algum mísero casal na face da terra fizesse algum programa diferenciado nesta data. Quando eu disse que iria para casa, ouvi verdadeiros escândalos.

- Aaaaaaaaai, coitada!

Coitada? O outro tá morrendo de gripe e a coitada sou eu?

- Ah, sinto muito! Que triste!

- Acontece.

- Você está muito chateada?

- Não, ué...

- Mas como não?????????

- Não, ué. Comemora-se outro dia.

- Ah, outro dia não tem graça!

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! Vão pro inferno! Que diferença faz se eu farei algo hoje, amanhã, sábado ou nunca? Por que vocês não pegam essas "condolências" e vão ver se eu estou na esquina? Chateada eu estava no dia dos namorados do ano passado, quando eu tinha acabado de sair do velório da minha avó, e não tinha mais pulmão pra chorar. Portanto, acho ofensivo que alguém considere que é minha obrigação ficar deprimida porque eu não terei o "ritual do dia dos namorados" hoje.

Na verdade, estou até pensando em passar na casa de uma amiga, que hoje faz aniversário. Na boa, sem neuras, com bolo e afeto! E ela, que é a romântica mais incurável que eu conheço, a mais açucarada, a que passa noites sonhando com histórias de Bianca e Sabrina, não vai fazer nenhuma pergunta bocó. E vamos nos divertir!

 

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Paulistanas da gema, falamos português, inglês, espanhol e muita bobagem. Adoramos livros, música e todo tipo de gastrono-
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