Red's, às 21h25
Minha esteticista é o máximo. Faz aplicações de produtos que derretem gordura em pouco tempo. Sabe aquelas gordurinhas que insistem em nunca desaparecer, mesmo com muita malhação, regime, cremes e afins?
Com tal milagre em mãos, ela tem uma imensa carteira de clientes. Inclusive um cara sarado, lindo, gostoso, alto, perfumado, que queria eliminar apenas umas sobrinhas no abdômen e que, durante algumas aplicações, disse para a esteticista que ela tinha que comprar três caixas do produto para aplicar na namorada dele.
"Saco, ele tem namorada", disse ela, enquanto me enfiava a agulha nos culotes. "Mas, pelo jeito, deve ser uma baleia, para ele encomendar três caixas logo de cara!", acrescentou.
Ele encomendou as caixas, mas ela bateu o pé e disse que não iria fazer aplicação porcaria nenhuma. E ele dizia: "Calma, eu vou convencê-la! Ela precisa entender que é necessário, ela precisa mesmo queimar aquelas gorduras".
"Você que sabe", respondia a esteticista. "Quando ela aceitar, me avise!"
Meses se passaram e o sarado conseguiu convencer a moça. A esteticista foi lá, então, para sua primeira aplicação. E, em seguida, foi até a minha casa fazer a minha, bufando de ódio do gostosão sarado. "Ele é um idiota, um escroto", ela dizia. E eu, sem entender nada. "Chego lá para aplicar o produto na menina... ela é um palito, Red! Um palito! Tem um culotezinho de nada", resmungava.
Pior do que isso. O babaca estava presente à primeira sessão. E a namorada sentiu na pele que a tal aplicação dói. Dói muito, muito mesmo. O tratamento só serve para quem tem uma força de vontade sobrenatural e para quem precisa MESMO do negócio. O que não era o caso dela.
Diante das primeiras agulhadas e da dor alucinante, ela disse que não queria mais. E ele levantou a voz, dizendo que ela iria tirar as gordurinhas, sim, onde já se viu? Ela não podia ostentar aquelas banhas por aí, era vergonhoso. E ele começou, na frente da esteticista, a tratá-la como se ela fosse uma gorda relaxada, como se o corpo dela fosse horrível e estivesse passando dos limites do tolerável.
Sendo a Cláudia uma esteticista, teria interesse em convencer uma esquelética da importância de usar o tal produto para emagrecer, e deveria achar lindo a atitude do cara. Mas ela queria socá-lo por acabar com a auto-estima de uma menina bonita, que não tinha problema algum no corpo, a não ser falta de neurônios, a ponto de aguentar aquele babaca. E ela continua o tratamento. Chora de dor. Mas quer agradar o seu homem.
Na semana passada, estava no cabeleireiro ouvindo a história da cliente ao lado. Cliente cujo marido decidiu que queria que ela tivesse o cabelo da Carolina Dieckman, quando interpretava uma vilã de cabelos loiros muito claros. Ao invés de dizer: "Ótimo, eu quero que você tenha o charme do Brad Pitt", ela resolveu obedecer. E lá foi clarear as madeixas.
"Meu cabelo ficou laranja", ela disse. "Eu queria chorar com a merda que tinham feito no salão". Mas, quando chegou em casa, o marido olhou e fez cara feia. "Que porra é essa? Eu queria que você ficasse igual à Leona!", bradou. "Eu tentei, mas deu errado, seu imbecil!", ela reagiu, chorando e batendo a porta.
Pensam que ele ficou com peninha e foi atrás dela? Necas. E, quando ela pintou o cabelo da cor original, ele ainda teve a cara de pau de ir perguntar quando ela ia tentar de novo ficar com os cabelos da Carolina Dieckman.
E eu ouvindo a história, lendo Caras, com os pés na água, pensando: "Por que mulheres se prestam a agradar babacas assim?"
Aí eu me lembrei que eu mesma já me prestei a papéis idiotas. Tive um namorado que, apesar de estar anos-luz de ter um corpo sarado, gostoso ou algo que o valha, não me deixava comer sobremesa quando saíamos pra jantar, porque "eu já estava rechonchuda demais" e "não era recomendado comer carboidrato após às 18h".
E eu obedecia...
Tudo bem que eu era bem mais nova, mas mesmo assim! Por que é que a gente deixa acabarem com a nossa auto-estima assim, tão fácil? Aliás, auto-estima deveria ser matéria do colégio. Ensinada incansavelmente durante toda a infância e a adolescência. Deveria ser tema de vestibular. Que é pra gente nunca ter que enfrentar situações assim, e depois passar a maturidade querendo apagar certos episódios de nossas vidas.
