It is all about girls... or men

07.08.07

As lições da infidelidade

Red's, às 18h51

"Como tem mulher chifrando o marido nesse mundo. Afe!", diz um amigo meu, que separa uns e-mails enviados para uma colunista de um site de autoconhecimento/esotérico. Ele me deixou ver algumas, sem divulgar o nome das moças, para que eu visse que ele não estava exagerando. De fato, eu li, só naquele dia, pelo menos umas cinco confissões de chifre. Na verdade, eram quatro. Uma delas não havia consumado ato algum, mas não conseguia parar de pensar no ex-namorado.

Este não é um post para pregar a fidelidade, nem para fazer a linha "os homens podem, as mulheres também". É para mostrar como as pessoas muitas vezes se enganam redondamente sobre relacionamentos, amor, expectativas, convivência, entre outros itens do pacote afetivo.

Os comentários femininos diziam, dadas as particularidades de cada um, praticamente a mesma coisa: meu casamento esfriou, tá tudo chato, mas agora eu encontrei um amante que me faz muito feliz. Algumas pensam em largar tudo pelo outro, outras pensam se isso deve ser levado adiante da forma como está, etc.

Vamos começar do começo, para que coisas fiquem muito claras. Fidelidade não é sinônimo de sucesso numa relação. Mas se as pessoas não estão em relacionamentos formalmente abertos, onde tudo está bem claro e explicado, então existem grandes chances de outros fatores da infidelidade levarem a relação ao fracasso. Ou seja, mentir, fazer o outro de bobo, brincar com os sentimentos alheios, e por aí vai.

A questão toda é: o que está levando essas mulheres à infidelidade? O casamento chato? O sexo monótono? O encanto não é mais como era antes? Faz sentido. Então elas começam a buscar fora de casa aquilo que lhes falta. Ou seja, ao invés de encarar os problemas, tentar conduzir o casamento de outra maneira, redescobrir o outro, estabelecer outras expectativas para a relação, preferem a trilha mais fácil: o amante. Ou os amantes. Algumas até se apaixonam. Claro, eles são uma novidade. Elas acham que eles não serão exatamente iguais aos maridos se estiverem com ela numa relação de anos e anos, de rotina e de tudo mais.

Verdade seja dita, muitas de nós não sabe exatamente o que é amar. O que mais vejo por aí são mulheres casando achando que amar é ter sempre borboletas no estômago, incluindo estrelas globais e outras celebridades aos montes. Elas têm a ilusão de que os anos não mudarão uma vírgula do que elas sentem. Ah, como a paixão deixa as pessoas cegas, não? Elas se imaginam envelhecendo ao lado do outro, e ambos andando na pracinha de mãos dadas, tão apaixonados como no dia em que se conheceram. Como se a vida fosse assim, um conto de fadas, onde todos são felizes para sempre.

O tempo passa, vem a rotina, os filhos, as contas pra pagar, as brigas, a família do outro. E, é claro, o sentimento muda. Paixão não dura pra sempre. E é aí que mora o perigo.

Embora eu não seja católica, há uma verdade no que diz o padre em todas as cerimônias de casamento: na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza. Amor, minhas caras, não é viver só conto de fadas. Amar é transformar a paixão em companheirismo. É ter um projeto de vida juntos. É diferente de sentir sempre aquela vontade de sair rodopiando pela sala.

Relacionamento dá muito trabalho, é preciso quebrar muita pedra para que ele dê certo no final. E o que eu vejo nessas mulheres infiéis é a falta de coragem de encarar a situação e se perguntar: "Quero continuar com este homem?". E, se sim, de se darem ao trabalho de, literalmente, botar a mão na merda para mudar coisas que precisam ser mudadas. Preferem não enfrentar todas as questões emocionais que isso envolve. Falando diretamente, não querem se dar ao trabalho. É muito mais fácil arrumar um amante, não é?

Ou então... se o tesão acabou, o amor também, se não existe mais desejo de investir, por que não separar? Que preguiça é essa que as pessoas têm de ficarem sozinhas, de começarem tudo de novo, como se isso fosse uma doença a ser evitada?

Não estou aqui julgando a infidelidade, porque moralismo definitivamente nunca fez ninguém feliz. Estou questionando apenas as razões que levam as pessoas a fugirem de seus problemas. Estou dizendo aqui, embora nunca tenha me casado, que amor não se faz só de coisas boas, de momentos inesquecíveis. Amor também se faz de brigas, de problemas, de saco cheio, de vontade de matar o outro.

Não é preciso ser expert em relacionamentos para saber que às vezes criamos expectativas românticas demais, e depois não sabemos como administrar a frustração. Ou vivemos alimentando fantasias (como é o caso da moça que vive pensando no ex, de quem ela se separou há mais de dez anos). Em uma relação, muitas vezes ficaremos de coração partido. E também não sentiremos mais borboletas no estômago. Mas é preciso ter maturidade para essa transição. Precisamos rever muitas de nossas expectativas, para colocá-las num patamar de realidade. Perceberemos que muitas delas ficam muito bem em finais de novela, mas na prática não funcionam bem assim.

Nada contra os amantes. Muitos ajudam até a melhorar a relação. O que eles não podem é servir de válvula de escape, para não consertarmos coisas importantes das nossas vidas, simplesmente porque não gostamos de entrar em contato com nossos problemas. Ou melhor, com nós mesmas. Não gostamos de saber que também erramos, que também frustramos o outro, que também temos defeitos e somos muitas vezes chatas, exageradas, mandonas. E que não cansamos de querer sempre consertar nossos homens. Afinal de contas, investir numa relação muitas vezes é como olhar-se no espelho e nos enxergarmos como realmente somos, e não como achamos que somos.

 E, se após esse processo todo, decidirmos que queremos outras coisas que os homens em questão não podem oferecer, então sejamos mulheres de verdade e partamos para outra. Mas, pelo menos, que isso seja feito com lealdade, com respeito ao outro.

Danuza Leão dizia que seria incapaz de ser infiel ao seu marido. Pois, se o fosse, acordaria ao lado dele e pensaria: "Este homem é um corno!". E ela não gostaria de ter um corno ao lado dela.

Ei, homens, isso vale pra vocês também, viu? Façam-me o favor!

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Paulistanas da gema, falamos português, inglês, espanhol e muita bobagem. Adoramos livros, música e todo tipo de gastrono-
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