Red's, às 20h35
Quinta-feira, véspera de feriado.
Depois de muito, muito, muito tempo, resolvo sair pra dançar. Aliás, o cansaço e o stress andam tão intensos que não tenho mais vontade nem de sair de casa. Então, quando aparece esse tipo de larica, é preciso aproveitar, antes que comece a dar aquele desespero em calçar uma pantufa e ficar vendo televisão pela milésima vez.
Comunico ao sr. namorado sobre meu desejo de dançar um pouco. E ouço a resposta:
- Eu não vou porque minhas costas ainda estão doendo. Mas acho que você deveria ir. Você está precisando. Vai te fazer muito bem!
OK, então. Findo o meu trabalho do dia, era preciso preparar-me para sair. Ligo para minha tia.
- Tia, você poderia fazer um micro ajuste no meu vestido para eu ir a uma festa hoje?
- Claro, é só passar aqui.
Lá fui eu. Enquanto ela fazia o ajuste, conversávamos sobre a vida, a festa, a dor nas costas do namorado, etc. Ao término, peguei a roupa e voltei pra casa.
Já em meu santo lar, deitada no sofá e conversando com o namorado em questão, este reclamava da reforma que estava sendo executada na casa dele, e que havia uma goteira bem em cima da cama. Eu o convidei para dormir, então, em minha casa, proposta que foi prontamente aceita. Foi quando tocou meu celular. Era minha mãe.
- Um minuto só, sr. Namorado, deixe-me ver o que quer minha mãe. Alô, mãe?
- Escuta aqui. Acabei de falar com sua tia. Que história é essa que você vai para uma festa sem o sr. Namorado?
- Vou, ué.
- Você quer me matar de vergonha? Ficou louca? Isso é coisa de vadia sem caráter!
- Mãe, eu não vou abrir esse assunto para discussão.
- Ah, vai sim. Porque você tem merda na cabeça. O menino doente e você na gandaia. Demonstração de egoísmo e de falta de caráter!
- Doente?
- Ele não está doente?
- Não.
- Então posso saber por que ele não vai?
- Não, porque eu já disse que não vou discutir este assunto com você.
- Você gostaria de ficar doente e ele te largar sozinha e ir para a balada?
Neste momento, ocorreu um flashback em minha mente. Há pouco mais de um mês, numa sexta-feira, ele foi para o aniversário de um amigo, junto com vários outros amigos, em uma balada, e eu fiquei em casa gripada. As únicas coisa das quais me recordo é de ter assistido filmes, tomado chocolate quente, ter ficado um tempão no banho e de ter ido dormir. Não me recordo de ter feito drama algum. Talvez, se eu estivesse no hospital, com o peito aberto e a equipe médica tentando a minha ressuscitação, eu pudesse ficar magoada pela presença dele na danceteria. Isso se eu sobrevivesse. Se eu viesse a falecer, ainda poderia cobrar - via psicografia - a presença dele no velório. Mas não era o caso. Também não era o caso de argumentar ou me justificar para a minha mãe sobre o meu relacionamento.
- Pela última vez, não vou discutir isso, mãe.
- Se é pra fazer essa palhaçada, termina logo o namoro.
- O namoro eu não vou terminar. A conversa, sim!
E desliguei.
Voltei para o telefone do sr. Namorado.
- O que foi?
- A minha mãe é louca.
Contei a história. E ele:
- Se eu não me importo, não vejo por que ela deveria.
Fui para a festa, me diverti deveras, meu namorado dormiu em casa e tudo ficou na santa paz. Hoje, em pleno plantão, ligo para casa dos meus pais e ela atende.
- Posso saber por que você saiu com a Mônica e deixou o Sr. Namorado sozinho?
(detalhe: eu havia passado o feriado inteiro na companhia dele e havíamos nos separado às 14h, quando eu fui encontrar com a Mônica para um rápido café antes do plantão)
- Ah, mãe, faça-me o favor, vai...
- Coitadinho! Ele almoçou sozinho.
- Claro, ele só tem a mim nesta vida. Se eu morrer, não haverá mais ninguém. A solidão será a única saída.
- Não sei como você tem coragem.
- Ah, mãe, me poupa e chama meu pai...
Eu tenho que aguentar isso? Não existe nenhuma lei que me permita interná-la? Num hospício com jaula, por favor.
